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Multitarefa: a romantização e os riscos de fazer várias coisas ao mesmo tempo

Por Phillipe Scerb – Mestre em Ciências Políticas pela SciencesPo-Paris e Doutorando pela USP



Não é de hoje que resolver problemas pessoais e profissionais concomitantemente é inevitável. Com a pandemia, porém, essa realidade ganhou outros contornos. Quantos pais e mães estão tendo que trabalhar, arrumar a casa e cuidar dos filhos ao mesmo tempo?



Ser multitarefa – antes uma qualidade reivindicada com orgulho por muitos profissionais – deixou de ser apenas um atributo desejado e passou a ser uma exigência para a maioria das pessoas. O que não é simplesmente resultado da Covid-19 e pode representar ameaças importantes para a produtividade e o bem-estar.



A partir de mudanças na esfera da economia e da produção, o mercado de trabalho demanda cada vez menos profissionais com competências específicas e repetitivas. Ganham importância as chamadas habilidades socioemocionais e a capacidade de solucionar problemas. Assim, a tendência é que os profissionais atuem em diferentes frentes e assumam um número cada vez maior de responsabilidades.



Há efeitos positivos nesse movimento. Por um lado, trabalhadores desenvolvem habilidades ligadas à criatividade e se deparam constantemente com novos desafios. Por outro lado, no entanto, o acúmulo concomitante de diferentes tarefas traz também consequências negativas.



Estudos já mostraram, por exemplo, que a distração produzida por ligações e-mails prejudica o desempenho, no curto e no longo prazo, de participantes em testes de QI. Uma pesquisa da Universidade Stanford de 2009, por sua vez, revelou que a qualidade do trabalho de pessoas multitarefa é inferior àquela de outros profissionais.



São diversos os estudos que mostram ainda que o acúmulo de tarefas aumenta o estresse, a ansiedade e o cansaço. Um deles, da Universidade de Sussex, chegou à conclusão de que pessoas que consomem informações de diferentes meios de comunicação ao mesmo tempo têm uma densidade menor na parte do cérebro responsável pela empatia.



Dificilmente vamos poder, no futuro próximo, escapar da necessidade de realizar uma série de coisas de maneira concomitante. Os imperativos e o ritmo da vida pessoal e do trabalho já não permitem um nível de concentração absoluto em apenas um objetivo. Não é por isso, porém, que precisamos seguir romantizando o multitarefismo.



Para além de reconhecer a maior ou a menor capacidade de um profissional em fazer diferentes coisas ao mesmo tempo, é urgente reconhecer os riscos e as ameaças do acúmulo desenfreado e concomitante de responsabilidades.